• Danyllo Andrade

Ethos depois da pandemia Covid-19

Atualizado: 13 de Jul de 2020

O ser humano forma cultura e diversos estilos de vida a partir das provocações cotidianas, sejam elas essenciais à vida ou não. A isso denominamos ethos, um conjunto de hábitos e comportamentos que compõe uma determinada cultura ou contexto específico; em poucas palavras: é o “espírito da sociedade”. A tecnologia faz parte da história e contribuiu para que este ethos se estruture de diferentes formas.


Por exemplo: no tocante à escrita, as sociedades antigas utilizavam rochas para escrever, depois papiro, há milhares de anos o papel, e mais recentemente o Word. Ao ampliar esta ideia a uma cultura, pode-se perceber costumes e artefatos (resultados da tecnologia) que são comuns nos nossos dias, mas que outrora tinham outro significado, ou nem existiam.

No livro Filosofia da Tecnologia (VERKERK, Maarten J, et al.), os autores expõem a relação entre a ideia de significado de duas formas, como posto:


“[…] (1) a palavra “significado” no sentido mais linguístico como uma indicação do sentido de expressões simbólicas, o significado de uma expressão; e (2) a palavra “significado” como uma indicação de uso, de utilidade, de razão para a existência ou mesmo o objetivo de algo.” (p. 48)

A tese deles, seguindo Martin Hiedegger, é que a realidade é experimentada pelo homem de maneira simultânea e coerente, atribuindo ao contexto de referência do artefato o significado do dito cujo. Considere, por exemplo, uma cadeira. Se você nunca viu uma cadeira, então não saberá o que ela é, mas saberá que ela foi produzida por algo ou alguém, o que já é uma referência. A pergunta que vem em seguida é: para que serve?


Esta pergunta caracteriza a busca do significado do artefato no seu contexto de referência, e não demorará muito para perceber o propósito da cadeira. Ao se conhecer o quadro de referência da cadeira, questões sobre ela dificilmente surgirão. Em certo sentido, o ethos é formado por esta estrutura de coerência de significado.


Herman Dooyeweerd propôs que a realidade é experimentada de forma coerente e significativa, contudo é caracterizada por módulos distintos denominados aspectos modais, conforme segue: aritmético, espacial, cinemático, físico/físico-químico, biótico, psíquico, analítico, formativo, lingual, social, econômico, estético, jurídico, moral e pístico. Cada um deles possui seu núcleo, isto é, o significado mais elementar de tal aspecto.


Os artefatos possuem três funções. A primeira é a origem do artefato, chamada de função fundante. Todos os artefatos formados a partir da intervenção humana são de função fundante formativa. Tome como exemplo: a árvore da floresta é de função fundante biótica. Todavia, quando a árvore é transformada em tábuas, a função fundante passa a ser formativa.

A segunda função diz respeito ao contexto ao qual o artefato será utilizado, chamado de função qualificadora. Observe como os autores de Filosofia da Tecnologia explicam:

“Ilustremos isso com uma análise da diferença entre um robô industrial e um robô médico. Ambos […] são baseados no aspecto formativo. Porém, há uma diferença enorme entre os contextos nos quais eles são aplicados e que determinam sua identidade. O robô industrial é utilizado em linhas de produção e fábricas particulares, e nesse caso a manufatura de artefatos tecnológicos assumem uma posição central. Aqui encontramos um contexto caracterizado pelo controle e formação que determina o modo como o robô tem de funcionar. […] Um robô industrial é, portanto, qualificado pelo aspecto formativo. Mas como seria para um robô médico usado em um hospital, por exemplo, para fazer cirurgia nos olhos? Neste contexto, o foco está no desempenho de uma intervenção médica, ou no cuidado de um ser humano doente. […] Assim, podemos dizer que um robô médico é qualificado pelo cuidado e assistência (dimensão moral).” (pp. 120-121)

A função qualificadora caracteriza a identidade de um artefato desde a sua concepção. Ao analisar os módulos e componentes dos artefatos será percebido que eles foram projetados para serem precisos ou robustos. O contexto define parcialmente como será a construção do artefato. Ademais, o cotidiano também é afetado por esta função. (VERKERK, Maarten J, et al.) exemplificam:

“[…] todos sabem que a função de um edifício como uma prisão é para prender os condenados. Desse modo, essa função caracteriza a destinação específica.” (p. 122)

Portanto, podemos resumir a função qualificadora do artefato com três ênfases: estrutura interna, papel condutor do projeto e papel específico.


A terceira função refere-se a tarefa operada pelo artefato, que chamamos de função operacional. Certamente esta é a mais evidente. (VERKERK, Maarten J, et al.) definem:

“[…] alguém pode se perguntar qual a diferença entre um robô que transfere um componente de uma esteira à outra e um robô que concerta um componente ou outro por meio de soldagem a pontos. […] Transferir um componente de uma esteira à outro relaciona-se com uma operação espacial, consertar um ou outro componente por meio de solda a ponto relaciona-se com operações físicas, e aplicar uma camada de tinta é um tipo diferente de operação física. Em todos esses casos, estamos lidando com a execução de operações controladas.” (p. 123)

A função operacional é importante para diferenciar artefatos similares, que possuem a mesma função operacional, mas são de contextos diferentes. Por exemplo: a cadeira comum para sentarmos à mesa e fazer uma refeição possui a mesma função operacional da cadeira de amamentação, isto é, simplesmente sentar. No entanto, o design da cadeira será influenciado pelo seu contexto. É de suma importância diferenciar a função qualificadora e a função operacional por duas razões: (1) se a função operacional for negligenciada há o risco do artefato não funcionar corretamente e (2) se a função qualificadora for negligenciada há o risco de o artefato não ter boa usabilidade.


Observe como ficaria o quadro de alguns exemplos acima citados:


O ethos é composto dos aspectos modais em sua coerência significativa nos mais elementares detalhes. Minha impressão é que nos últimos meses o ethos foi afetado sobremaneira. Para isso me valerei da máscara cirúrgica e do álcool gel em suas funções, como abaixo:




Por serem artefatos da mesma área e produzidos para o mesmo fim eles possuem basicamente as mesmas funções. A função fundante é caracterizada pelo aspecto formativo, pois são artefatos produzidos através da intervenção do homem; a função qualificadora é caracterizada pelo aspecto moral, pois o cuidado com a saúde define o artefato na totalidade, seja ele para o nariz/boca (máscara) ou álcool gel (mãos); e a função operacional caracterizada pelo aspecto físico, pois permitem a interação física, seja numa cirurgia ou no cotidiano.


Antes, o caminhar a céu aberto com máscara cirúrgica e a utilização constante do álcool gel era visto como algo não rotineiro, algo que estava fora do cotidiano, não fazia parte do modo de vida da cultura ou sociedade. O ethos atual tem mudado de cenário. Tornou-se comum a utilização destes dois artefatos. Em caráter especial, fábricas destinadas a produtos têxteis se comprometeram em produzir milhares de máscaras, enquanto empresas de bebidas alcoólicas, em produzir litros de álcool gel. Mas este fato não é o todo.


A máscara que possuía o propósito primordial de impedir que as partículas das salivas entrassem em contato com terceiros para impedir a contaminação, recebe um protagonismo do aspecto econômico (controle de recursos escassos, mordomia, fertilidade, produtividade) e outras do estético (harmonia, beleza, alusão, diversidade plena de tonalidades). A encarnação na cultura se deu de tal forma que lojas estão comercializando-as como se fossem artefatos de beleza, como uma pulseira, colar ou óculos escuros, o que evidencia o aspecto estético. Da mesma forma, o comércio está respondendo às demandas também considerando-as como apetrechos de beleza, cujo preço fixado considera a marca e a estética.


O álcool gel agregou valor às empresas que o produziu. As empresas de bebidas alcoólicas cresceram consideravelmente no conceito de moralidade da sociedade, pois o amor, caridade e desejo de servir está incorporado a este ato. É difícil o aspecto estético virar protagonista, mas o econômico talvez tenha espaço.


Estes dois artefatos configuram parte do ethos a partir da Covid-19 e, quem sabe, com suas funções modificadas terminantemente. A função qualitativa tem deixado de lado o aspecto moral, e tem se concentrando no econômico ou estético. Bem, se isso se solidificar será muito interessante, porque terá o risco do artefato não funcionar corretamente ou de não ter boa usabilidade.


Agora, a máscara e o álcool gel fazem parte de um contexto maior de uma cultura. Nunca mais olharemos para eles da mesma forma.



VERKERK, Maarten J.; HOOGLAND, Ja, STOEP, Jan van der; VRIES, Marc J, de. Filosofia da Tecnologia: uma introdução. Viçosa/MG: Ultimato, 2018.



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